eventualmente, tudo se conecta

outra cousa que também me parece metafísica é isto: — dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. suponhamos que a primeira bola se chama… marcela, — é uma simples suposição; a segunda, brás cubas; — a terceira, virgília. temos que marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em brás cubas, — o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar — solidariedade do aborrecimento humano.

memórias póstumas de brás cubas – machado de assis // capítulo XLII – como é que este capítulo escapou a aristóteles?

 

ela conheceu uma menina que gostava das coisas que ela gostava quando tinha 7 anos. mas ela só lembrou disso quando a menina disse uma palavra que ela não lembrou depois. não é engraçado pensar que ela esqueceu uma coisa tão marcante assim? na verdade, eu não sei se esqueceu ou se jogou naquela parte cinzenta do cérebro onde moram os boatos. isso, aquela sem importância.

esses dias, um cara puxou assunto e eles ficaram horas conversando sobre coisas em comum. claro que aquilo poderia ter sido levado adiante, mas não deu certo. ela só queria conversar com alguém sobre as coisas que estavam sufocando a cabeça dela.

pensou numa camisinha dentro de seu carro – totalmente improvável -, e a camisinha apareceu um dia depois. pensou no assalto, aconteceu. pensou que não aconteceria uma coisa, e, ao que tudo indicou, a coisa se foi pelo ar e desapareceu.

ela conheceu uma menina que gosta da música que ela gostava quando tinha 16. naquela época, a música faria sentido. hoje, não faz. mas, se conecta de algum modo, não é isso que dizem?

a menina que estudou com ela e que foi parar na universidade com uma amiga da amiga. a 1200 km de distância. e a menina que reclamou do chefe abusivo, que tinha uma relação forte com as ex-namoradas egoístas, e que depois se misturou tanto que não sabia mais quem era quem.

aquela campanha que foi desenhada por um pica da publicidade que fez sentido na terapia.

eventualmente, tudo se conecta.

 

 

as emoções me causam uma certa dependência

ontem eu fui num encontro. num daqueles que você cria uma expectativa sobre reconstruir as coisas e dar uma chance de sentir tudo de novo. mas, é estranho. é gostoso e estranho. foi um blind date. eu não tinha visto foto alguma, nem sabia como era essa pessoa. me bateu um mix de medo com vontade com “já tô aqui”. esse tipo de sensação faz com que a gente se sinta vivo, não é? aquela adrenalina que dá, você sabe algumas poucas coisas sobre alguém que parece interessante, mas, no fim descobre que não sabe nada. porque dali podem surgir tantas coisas, pode não surgir nada e ficar por isso mesmo.

eu não costumo me dar bem em encontros. minha timidez me bloqueia quase como num drama grego. mas, quando eu quero e realmente quero, eu vou. ontem, eu senti um medo muito parecido com o que eu senti quando estava para viajar, pela primeira vez, sozinha para a europa. não é qualquer medo, é um medo que quase paralisa, mas, eu fui. nos dois sentidos, lá estava eu.

a pessoa me encontrou, deduziu quem eu era (ela também não tinha visto minha foto). a noite foi agradável. e, apesar do papo ter sido bom, é inevitável fazer comparações ou tirar conclusões em alguns lapsos de segundos. quando não se está totalmente confortável, começam as recordações. quando eu estava na fila do sushi, por exemplo, eu lembrei que eu queria pegar apenas o sashimi do niguiri. é a única coisa que dá pra tentar um sashimizinho sem gastar tanto num kilo de japa.

Niguiri-sushi-Misaki-Restaurante

niguiri

neste momento, eu me teletransportei para dois momentos muitos distintos do passado: de uma pessoa que me reprimia por “roubar” e deixar o arroz lá, segundo essa pessoa, isso era uma puta falta de educação. por outro, uma outra pessoa que fazia exatamente igual, e eu achava o máximo por ela ser tão parecida comigo. senti mais falta desta última, mas, lembrei que a realidade ali era recomeçar e cortei este assunto, com um belo e digno recalque.

segui, cheguei lá onde marcamos de nos reencontrar, a pessoa do encontro tinha pedido um pedaço de pizza. falou que não gosta de comer comida fria no frio (estava uns 17 graus celsius). fiquei reparando em seus detalhes e o quanto é rico conhecer uma pessoa totalmente diferente de você ou o que se está acostumado.

é uma pena que quase ninguém dê valor para isso hoje em dia. falamos sobre isso, inclusive. seguimos, com esse mútuo sentimento e pensamento. foi legal, mas meia hora depois cada uma pro seu canto e hoje a gente nem se falou. no fim, voltamos ao zero? sei lá. se foi ou não, se é isso ou não, hoje eu acordei sentindo que, às vezes, o que falta na semana é uma boa conversa e isso já basta para preencher esse vazio que se sente. falar é bom, terapia funciona justamente por esse motivo, não é?

justo.

 

 

what’s up me maybe?

pensei em escrever uma carta, tem isso da letra. hoje em dia você só sabe a letra de alguém se convive muito com ela. daí, lembrei do kendi – um amigo que se foi -, ele mandava cartas para as pessoas. uma vez, conversando na saída do elevador, eu disse ao kendi que eu também gostava de mandar cartas. ele me perguntou: mas você manda?, “não” – disse, e ele lançou um “aí tá a diferença”.

saquei hoje pensando em nada que esse “aí tá a diferença” é o famoso abismo (ou não) entre o gostar de algo e fazê-lo. fazer algo exige uma série de comandos psicocorporais que vão além do desejo. é necessária a ação para que algo saia do plano do imaginário.

aqui está algo que me diz muito sobre isto:

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BAS JAN ADER, por EDUARDO MÉDICI, na 30a Bienal – SP, 2012

as palavras se perdem, ideias também. moleskine taí pra explicar um pouco a importância de colocar no papel, racionalizar, dar cara (talvez nomes) aos bois da cabeça. daí, quando não se é dito ou posto pra fora, dependendo do tamanho da parada, fica na própria cabeça e vira noia ou simplesmente se vai, desaparece e tchau. se foi, já era. post-it taí pra explicar o tamanho da importância desta bagaça no trabalho (principalmente, claro que dá pra usr post-it pra outras coisas, mas…enfim).

tudo bem quando desaparece, a questão é quando isso fica na cabeça e vira um ciclo de “e se”, “se”, “se pá”. daí, meu amigo, se isso acontece, de alguma maneira isso aí precisa sair. arte, música, palavras, vômito, sei lá. existem n maneiras de expelir um corpo estranho. mas, falando assim, parece que é algo tão complexo que necessita de vida. precisa ganhar forma. então, significa que não é algo pelo qual se passou indiferente, senão não teria tanta noia.

“um telefone bastaria, passaria limpo a vida inteira”,
GESSINGER, humberto.

ou talvez não. seria mais uma daquelas coisas em que se arrepende depois e já era, “não era pra ser mesmo”. joga pra vida, cospe pro alto, soca o destino e sofre recalcando, neurótico. “finge que foi nada. toca o barco.”

mas, e se?

o dia em que matei meu ego – parte 2

continuando a série 

a vida é muito curta para se preocupar, eles disseram. também que a vida é muito curta para não deixar as emoções falarem mais alto. a vida é muito curta para um tanto de coisa, já sei.

lá vêm eles falar que eu devia ir pra balada pegar todo mundo e transar com tudo o que se mexe. lá vêm eles dizer que eu preciso cortar o cabelo, mudar o visual, reinventar o guarda-roupa.

a vida deve ser curta para um monte de coisa, menos para o sofrimento. “tristeza não tem fim, felicidade sim.”

a chance de esconder o rosto depois de tantos tapas cretinos e sem honestidade. e o que eu vou fazer agora? esperar, é claro.

quando a unha chegou ao limite que você julga ser o coerente para os dedos. os pés não param de balançar e o relógio registra dois minutos de você olhar: o expediente ainda não acabou, foca aí.

o que eles não dizem é que em algum momento da vida, você tem e se deve dar o direito de surtar. como disse uma amiga minha, o problema em ficar louca é quando você faz isso frequentemente.

todo livro de etiqueta vai dizer que você precisa ficar quieta e deixar as coisas pra lá. que ignorar é o melhor remédio. até o slipknot ecoa “i won’t let this build up inside me”.

neste momento, eu acho que tem alguém do meu lado. mas, é o meu cabelo. olho pela segunda vez e me dou por convencida: sou só eu. talvez eu tenha algum grau de neurose. dizem que isso é coisa das pessoas que se encaixam nesse grupo.

bem, eu não sei. mas, me parece que todas as pessoas têm algum tipo de confusão com sentimentos. algumas pessoas levam isso na boa, outras levam dias, meses. conheço uma pessoa que já está há 5 anos. será que isso é normal? me coloco a pensar sempre, não deve ser. mas eu não estudei psicologia e não tenho muita vontade de ajudar ao próximo quando não tenho um interesse claro – pra mim mesma – antes. se isso é ruim, eu não sei.

mas, com tudo isso, estou aprendendo a me aceitar do jeito que sou.

a morte do ego também é uma ruptura de autoparadigmas.

 

sobre timing, expectativas e mudanças

calculo por alto que 90% da sala a odiava no primeiro ano da faculdade, mas um dia, eu a vi ajudar – sem medir esforços – uma pessoa que provavelmente não vai ter nenhuma chance neste mundo competitivo. na última sala gelada de uma faculdade não popular, sem palcos e confetes. essa foi a oportunidade que a vida me deu de rasgar todos os meus conceitos sobre aquela mulher e hoje, mesmo distante, ainda a vejo com outros olhos.

ela costurou a barra da minha calça que eu mais tava precisando, mas só percebi quando me olhei no espelho e reparei que tinha alguma coisa diferente. o que seria? “olha que legal, a barra!” liguei para agradecer. senti falta de todas as vezes que situações assim passaram despercebidas – ainda estou tentando, não é fácil, confesso, mas eu estou me esforçando.

havia uma série de emails na minha caixa de entrada falando sobre a minha ausência, não me lembro de ter respondido todos, mas, me lembro dos que respondi. com sinceridade e com a intensidade que eu poderia entregar. “essas coisas levam mais tempo,” pensei. não é assim de uma hora pra outra. a amizade não existe mais, mas isso não quer dizer que o sentimento não foi sincero. e mais: que ele não existe hoje em dia. bullshit.

uma pessoa distante me mandou um sms perguntando se eu sabia responder uma coisa que ela com certeza sabia que eu saberia responder, mas eu estava tão chateada na hora que só consegui devolver, rispidamente, “google.com”. pedi desculpa mais tarde pela grosseira, mas, não me arrependo da minha atitude na hora. parece contraditório, mas quem é tão maduro assim quando está com raiva? “este é o meu limite”, quis dizer em outras palavras.

aquele outdoor que foi cogitado, aquela carta que ficou no rascunho. aquela outra que foi enviada e não foi respondida. tudo isso que eu posso me lembrar, mas na hora pareceu coerente fazer ou não.

[to be or not to be, that’s the question]

ironic da alanis morissette é uma das minhas músicas prediletas. ela fala abertamente sobre a ironia de perder o timing das coisas e as consequências de situações condicionais dentro de acasos.

para charles s. peirce, em sua teoria do acaso, o conceito do acaso possui dois significados distintos: 1 – pode ser um acaso matemático, oriundo da teoria das possibilidades, e 2 – acaso absoluto, entendido como uma propriedade real de mundo e como ausência ou violação das leis da natureza.

essa teoria peirceana é totalmente influenciada pelo ideal do filósofo helenístico epicuro: a aleatoriedade está associada a estruturas e processos (sequências de fenômenos) que não são determinados por nenhuma causa, uma aleatoriedade objetiva que é impossível de ser descrita completamente, portanto, sobre ela não podemos construir modelos físicos.

um pensamento nada determinista, que beira ao ilógico. afinal, para onde é que as coisas vão, afinal? mas… e de onde elas vieram?

diz-se na semiótica – do mesmo charles s. peirce – que se existe a primeiridade – é o acaso ou fenômeno em si, algo tão inexplicável que se buscam palavras para tentar descrever o que é, mesmo assim, tudo que for dito será insignificante. a secundidade – quando nossa cabeça relaciona “isso” ao que nos é familiar, em uma tentativa de que esse acaso/fenômeno/qualquer coisa que tenha acontecido e é difícil de ser explicado, tenha uma cara ou se pareça com algo, então, aí vem a terceiridade, quando, ao relacionar as coisas, procura criar sentidos para toda essa zona do cara%$@ cadeia semântica.

então, seguindo essa lógica, tudo aquilo que, num primeiro momento nos parece (ia) estranho, pode ser relacionado ao contexto que vivemos/estamos e, se fizerem sentido, ganham força suficiente para nos dar novas direções, arriscar novidades e por consequência, nos renovar e nos fazer ressignificar não só coisas, como sentimentos, percepções, lugares, conceitos e pessoas.

então, não há nada de errado com o timing, tampouco com as expectativas. no fim, é tudo novo de novo. vamos nos jogar onde já caímos.

 

 

 

e se eu não souber o valor de x?

a tendência homo-sapiens-sapiensiana-iluminista de procurar razão para o irracional e justificativas para o que não se sabe ao certo nem o que é, que dirá dizer o que é.

exatidão, a mais b com c é igual a oito vezes nove ao quadrado e infinito. “estou dando esse passo para frente, logo, o próximo passo deverá ser para frente também”, certo?

nem sempre. às vezes o passo sai torto, para trás, etc.

rimtaomrm

quando se tem uma cabeça que tende ao pensamento lógico-matemático, co e ordenar as coisas é a única maneira de fazer com que o caos faça sentido.

dentro de um ciclo trigonométrico, por exemplo, existem n fórmulas e maneiras de se chegar ao seno de x, cosseno de y e por aí vai… mas, também, no meio dessa roda toda, existe o pi – aquele número que até hoje ninguém conseguiu provar se tem ou não final.

ainda nesse ciclo, é possível que o excesso de ângulos retos possa tangenciar os acasos. e, todo mundo sabe, que por definição matemática, uma tangente de um ângulo reto, ou seja, de 90º é impossível de ser encontrada, pois seu valor é infinito.

então, nem tudo é tão exato quanto parece ser. às vezes uma raiz quadrada pode se transformar numa dizima periódica (0,333333…). em casos assim, então, o mais conveniente é fazer aproximações e arredondar para o número mais próximo – lá se vai a exatidão mais uma vez.

se o mesmo passo do começo deste texto for um pulo, teremos um novo cenário. se o passo for de um animal, uma nova variável. se a pessoa do passo levar um tiro e morrer no meio do caminho, outra variável completamente diferente.

então, comolidar quando não se encontra o valor de x? como proceder quando não se fizer ideia do que ele representa nessas equações? e quando, um engenheiro civil, ao planejar um prédio, não previu que aquele solo não era bom o suficiente? e quando o que se pensou sobre aquela pessoa não fazia o menor sentido que faz agora?

é aí que se começa a endoidecer.

 

 

 

 

talvez, eu suponho

talvez existam mesmo sete bilhões de pessoas no mundo. talvez existam mesmo tantas galáxias que elas sejam incontáveis. talvez existam mais do que as 7 notas musicais e suas varições em bemóis e sustenidos. talvez existam mais sentimentos do que os verbetes de todos os dicionários do mundo puderam descrever. talvez existam espécies de animais que nunca foram descobertas, talvez existam também animais que nunca foram conhecidos e que nunca nem poderão receber o título de espécie em extinção. pode ser mesmo que o pi seja infinito. existem muitas teorias sobre a vida pós-morte, pode ser que alguma delas esteja certa. pode ser que todas estejam erradas. a minha dentista poderia ter sido advogada. meu melhor amigo poderia ter sido um mero desconhecido. esta música que tô ouvindo agora poderia ser de outra banda. inclusive, esse estilo poderia ter sido outro.

uma vez eu li que todas essas estrelas que nós vemos no céu hoje já morreram há xyz anos. poderíamos não ver graça nenhuma nelas e acharmos-nas mórbidas demais para sentir e compreender seus variados significados.

poderíamos viver mais de 200 anos. uma gestação normal poderia durar mais que 9 meses. você poderia ter nascido loiro, eu poderia ter nascido com outros olhos.

toda a gente e tudo isso poderia ser de outro jeito. mas, não são, não foram. seja por acaso do destino, seja por vontade própria, por más ou boas coincidências ou por forças externas, complexas demais a ponto de serem incompreensíveis à condição humana.

tudo poderia ter sido tudo. mas tudo é abrangente demais. então, tudo vira possibilidades. tudo vira linhas, pontos, muros, territórios e limitações.

pode acontecer de tudo, no fim, virar nada.

e nada, por incrível que pareça, é quase tudo que compõe o mundo. afinal, muito além de toda vaidade humana, limites de compreensão, superfícies, entendimentos racionais, muito além do que se pode ver e compreender, existe um espaço, que até o momento, acreditamos ser um grande vazio.

universo1

o nada (reprodução nasa)

there’s a million combinations and this is one
there’s a million combinations and i am one
there’s a million ways to win or lose
there’s a million ways to cheat
there’s a million ways to show yourself out

there’s a million constellations and this is one
there’s a million destinations and this is one
there’s a million ways to show your heart
there’s a million ways to lose
there’s a million ways to prove yourself now

[kaiser chiefs – listen to your head]

 

uma porta estreita pra passar

chama para dentro. para fora?
o suicídio do cotidiano, uma morte a cada 360 giradas ao redor do ponteiro.
despreparo de um general pensante, goma de protestos e incêndios escaldantes por dentro.
fico cansada só de tentar pensar

onde fica a saída?
tanta ditadura, por que tanta guerra? no princípio era o verbo, e o verbo era se esgalhar.

vai.

lembre-se de quem passou por aqui e bebeu desse mel
dessa ponte.
mas, não bateu porque não passou desta porta
que você sabe onde começou.

há quem torça para que aconteça uma desgraça.
não se faça de pobre, homem.
sem olhar pra trás, jamais.

se você se lembrar,
eu sei bem por que passei,
só é eterno enquanto dura.

você vai se lembrar de tudo o que eu fiz.
todo dia depois como se tivesse dado a volta.
no canto direito, debaixo porta.

e sem fechadura.

quem mexeu no meu norte? (ou como, de repente, uma bússola não fez o menor sentido)

navegando aqui neste barquinho em alto-mar, vento sul me pegou quase que pelada. tempestade, chuva forte e até um furacao ali do lado eu avistei. diz que vento sul costuma durar três dias, mas esses últimos três têm me lembrando todos os dias que três pode equivaler a seis, sete, doze ou até setenta e sei, dependendo da maré – e da força de espírito e da coragem do marujo.

e a coragem de se lançar ao mar, praticamente nu. dessa vontade maluca de chegar do outro lado de lá em um punhadinho de meses, mas esqueceu quase de lembrar que a maré é brava pra cacete, meu senhor, e perdoa marujo de primeira viagem, perdoa não.

é água, é céu, é quase-o-fim-do-caminho, é chuva, é mar,

é rocha, é um raiozinho de sol ali, miudinho

– bússola, por que me abandonaste? – se indaga a cada mudança de vento, o marujo

pegou e se atirou sem ninguém. foi assim, sem dó, sem medo. pegou o terço numa mão e no outro, um diário de bordo. no peito, do lado esquerdo, uma tatuagem: deus, livrai-me de todo mal. no braço do outro lado, amém.

vai marujo, espera passar vento sul e segue a estibordo. arreda âncora e avante ao norte.

bússola partiu, inventa.

acho, de cá, que este norte é logo ali.

The Sea At Les Saintes Maries De La Mer – Van Gogh

 

o dia em que matei meu ego – parte um

naquele dia, eu falei que ia parar com aquilo. mas é claro, não parei. de novo. pouco tempo depois, tudo estava de volta, na minha cara. aquilo, então, parou, me fitou e, sem nenhum tipo de pudor, me encarou com aquele sorriso gélido-sarcástico. não precisou dizer… eu já tinha entendido o recado. e doeu. na espinha, na cicatriz da cabeça, na alma. no apogeu de mim mesma.

mas por que continuava com aquilo? como me deixar levar por algo que realmente me destruía e me fazia desacreditar em quase tudo que pude construir? a resposta, franca, clara e precisa in f. nietzsche: o que não te mata, te fortalece.

mas o que não se contam nos gibis é que entre fortaleza e fraqueza há um abismo chamado ego trip. e a linha entre se perder e se achar tão fodamente de/em si mesmo é tão fina quanto um dedo de prosa com a mãe.

“concentração que você indo para o lado certo”, definitivamente, se perde entre turbulências de prazeres imediatistas e/ou sussurros que parecem preencher a autoestima. mas, no fundo, a gente sabe que é mentira, mas, mesmo assim, se deixa levar na grande maioria das vezes.

labirinto: sistemas que se perdem dentro de si

aí eu me pergunto de novo: por quê?

me parece uma questão de não saber nada sobre as próprias verdades, vontades e os reais desejos.

e, também parece clichê e eu sei que é, mas quando a gente tá com vontade de uma coisa que vai exigir muito ou quase tudo do que podemos oferecer, a gente pouco se fode ou tá cagando e andando pra o que vem dificultar ou tentar acabar com essa “grande coisa”. porém, os “momentinhos” ou “coisinhas rapidinhas, porém satisfatórias naquele momento” vêm pra dar um tiro no ponto de vista… daí que a gente começa a se perder.

mas eu não quero isso. não quero de verdade dessa vez.

[continua]

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